terça-feira, 10 de junho de 2014

8 e 80

Nós somos diferentes de 8 à 80.

Você é esse vento imponente que sabe onde quer bater, eu sou esse sopro vacilante que não sabe ser nem vento e nem brisa. Você tem esse passo firme como de quem aprendeu a andar sozinha, eu tenho esse jeito desajeitado de tropeçar nas minúsculas das pedras se estiver andando sozinha.

Você é essa flor enorme que criou os próprios espinhos pra se proteger, eu sou essa semente pequerrucha que não sabe se nasce flor ou espinho. Você tem esse ar de “eu sei me virar sozinha, meu bem”, eu tenho essa súplica nos olhos dizendo “por favor, me mostra, não sei enxergar sozinha”.

Você tem esse estar seguro no mundo de quem sabe onde está, eu tenho esse jeito cambaleante que não sabe se foi o mundo que nasceu errado ou se fui eu. Você é essa voz clara que transmite bem o que quer, eu sou esse violão com as cordas vocais bambas que desafinam, embaralharam e quase não saem. Você é esse grito falando para vida como ela deve ser, eu sou essa voz baixinha perguntando pra ela: “como se deve ser?”.

Você é exclamação, eu sou interrogação. Você tem as respostas pras coisas e perguntas para o amor. Eu tenho perguntas para todas as coisas e respostas para o amor.
Você é o muro alto no qual eu pichei com o meu jeito vândalo em letras garrafais “o amor é urgente”.

Você é aquela coisa que fica linda com uma regata branca e o cabelo bagunçado, eu sou aquela que precisa ir três vezes ao salão para ser notada. Eu sou a versão feminina do Cara Estranho dos Los Hermanos, mas que divide o coração com você.

Eu sou uma canção dos Beatles bem clichê pedindo “me toca na sua estação de rádio preferida, baby”.

Você levanta uma sobrancelha e o mundo pararia se você mandasse. Eu sou o mundo que você pára levantando uma sobrancelha.

Eu sou aquela que tem uma alma desassossegada de adolescente que está sempre prestes a conflituar-se com a vida, você é aquela que me diz “quem domina a sua vida é você”.

Você é mar, eu sou lagoa. Você é tempestade de verão, eu sou garoa fininha, mas quando a gente se beija, a gente chove igual em todo lugar e ninguém poderia prever quando a chuva iria cessar.

E você já visitou mais corpos que eu, mas eu te toco como se já tivesse o seu mapa. Você é grito, eu sou choro, mas quando a gente ri junto, todo o barulho dessa cidade caótica fica mudo. Você é o pó e eu sou o açúcar do café que a gente bebe todo dia. Às vezes com mais pó, às vezes mais açúcar. E a gente se bebe, se toma, se vira de 8 à 80.

Você tem opiniões próprias e sabe qual é o seu caminho, eu sou aquela que precisa olhar as placas.

Você é a placa em neon dirigida à mim “o seu caminho é o que decidir ser. Decida e vai”.

Eu sou aquela que estava cansada de te esperar segurando o controle remoto da TV sem parar em um canal. Você é aquela que apareceu pra dividir o sofá comigo e ser a minha programação.

Você é rodovia, eu sou aquela estradinha de campo que foi feita de tanto pisarem em cima.

Eu sou o inverno de agosto, você é as águas de março fechando o verão.


Mas aquele nascer do sol que a gente viu só estava, na verdade, vendo a gente nascer.

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